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Um ofício não se aprende, se rouba
Por Júlio Rodriguez
 
Na hora marcada, a Sra. Colette estava a minha espera em sua residência, em Ipanema, e o porteiro do prédio já me aguardava.
 
A decoração de seu apartamento é de extremo bom gosto e a arrumação, desnecessário dizer, impecável.
 
Gentil e elegante, Colette descreveu sua vida de maneira singela e modesta, como se fosse a coisa mais normal do mundo alguém chegar no Brasil, em 1960, fugindo do antigo regime comunista romeno, sem dinheiro, sem profissão definida e tornar-se uma profissional digna de nota na hotelaria brasileira.
 
“Eu cheguei no Brasil, em 1960, com a roupa do corpo e só contei com a ajuda de um tio para aprender o português básico”, conta.
 
Os primeiros anos no país foram divididos entre trabalhos eventuais de baby-sitter e costureira e foi graças a um desses pequenos serviços, que Colette entrou para a hotelaria. “Acho que tive muita sorte, eu já estava com 46 anos, sem saber nada de hotelaria, e estava trabalhando para uma das filhas do Bezerra de Mello, da cadeia Othon”, lembra Colette. “Aí eu perguntei a ela:`Será que eu não posso fazer de noite um baby sitter?´ Então ela me encaminhou para o gerente do Leme Palace. Como falava inglês, francês e alemão, ele me perguntou se eu não queria ser telefonista, e foi assim que tudo começou”.

Durante algum tempo, Colette acumulou as funções de telefonista da Rede Othon e costureira particular. Alguns meses mais tarde, já no Copacabana Palace, ela leu que estavam abrindo os cursos de governanta no SENAC. “Era justamente no horário do meu plantão, então tive que me demitir”.
Mas ela precisava do dinheiro e foi trabalhar no Hotel Ouro Verde, naquela época um dos “mais mais”, nas palavras de Colette. Lá, ela conseguiu seu primeiro estágio no setor de governança.
 
“Trabalhava-se muito”, recorda-se Colette. “Eram 76 quartos para três pessoas cuidarem: eu, a proprietária, Sra. Augusta Martis e uma governanta. Mas, tive sorte, pois tive uma escola de base no Ouro Preto, aprendendo também o funcionamento do room-service e do restaurante”.
 
Tanto a experiência valeu, que mais tarde Colette foi convidada para inaugurar o Inter-Continental Rio, como assistente de Governança.
 
No Inter-Continental, Colette conheceu o sistema norte-americano de administração hoteleira. “Lá era tudo com calculadora e os gerentes do sistema americano só queriam saber o custo de tudo”, conta Colette. “Havia umas fichas de avaliação – eu ainda tenho uma porção delas comigo (risos) –, que mediam nosso desempenho. Então procurei absorver o máximo de informação possível.
Dessa época até a aposentadoria, aos 60 anos, foram mais de dez anos como governanta do Inter-Continental e outro tanto no Copacabana Palace, além de breves passagens pelo Everest e Rio Othon Palace.
 
“E tudo sem escola. Na Romênia tem um ditado: `Um ofício não se aprende, se rouba´. Você tem que observar as coisas, ser curioso, é assim que se aprende”, afirma Colette.
 
Dentre as diferenças da hotelaria atual e a de seu tempo, Colette destaca a introdução do computador e o sistema de gestão norte-americano, que geraram redução de pessoal e a necessidade de uma maior produtividade.
 
“Acho que às vezes o trabalho das governantas é um pouco dificultado por isso. Querem fazer e não tem pessoal suficiente”, observa. “Mas, também faz parte da função de uma governanta querer sempre mais. A gente tem que pedir sempre um tantinho a mais de nossa equipe, cobrando, mas sendo justa”.
 
Colette se entusiasma com a criação da ABG. “A troca de experiências é fundamental, porque ninguém nasce sabendo, tem que aprender e tem que aprender com a experiência dos outros. Naquela época, não tinha livros, hoje já tem até escola, mas nada substitui a troca de informações na própria categoria”, avalia.
 
Para quem um dia pretende ser governanta de hotel, Colette aconselha: “procure se antecipar aos problemas, prever o que pode acontecer de errado, pois o quanto menos o gerente geral te chamar em sua sala, melhor”. Isso e não perder a calma. “O nervosismo você transmite para os subalternos. Então você tem que ter calma, eles confiarão em você e vão lhe seguir”, ensina Colette.